“QUANDO A SOCIEDADE OLHA, A OBRA ANDA”:
ENGENHEIRO TRANSFORMA CONHECIMENTO TÉCNICO EM FERRAMENTA DE CIDADANIA

Da experiência em grandes projetos de engenharia ao trabalho voluntário, a trajetória mostra como conhecimento técnico, participação cidadã e cooperação podem ajudar a transformar obras públicas em benefícios reais para a população

Texto e Pesquisa: Daniele Marcola, Força Tarefa Cidadã
Pré-diagramação e Revisão: Felipe Alves
Diagramação, Arte Final e Programação: Mateus Porfírio

Por que tantas obras públicas atrasam, recebem aditivos ou simplesmente param?

Essa pergunta sempre deixou inquieto Victor Guimarães Vieira, que, durante boa parte de sua trajetória profissional, esteve diante de grandes obras. Engenheiro Civil, formado pela UFMG, Especialista em Gestão de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas, Guimarães construiu uma carreira ligada à infraestrutura, obras públicas, barragens e hidrelétricas.

Para colaborar na busca de resposta para a pergunta que tanto lhe intrigava, Victor se tornou voluntário da FORÇA TAREFA CIDADÃ (FTC).

Ao longo de sua experiência profissional, observou problemas provocados por falhas de projeto, planejamento, gestão, fiscalização e até questões políticas.

A inquietação existia. Faltava encontrar uma forma de transformar essa preocupação em participação efetiva. Foi então que conheceu a Força-Tarefa Cidadã Obras, por meio da Sociedade Mineira de Engenharia e do CREA-Minas. E algo no projeto chamou imediatamente sua atenção.

“Pela primeira vez, vi um projeto que não reclamava da paralisação da obra pública, mas ensinava o cidadão a fiscalizar… Ser voluntário foi transformar indignação em ação, atitude para mudar os cenários.”

Victor Guimarães Vieira
Em Ação como Voluntário da Força Tarefa Cidadã

MUDANÇA… DE: “NÃO ADIANTA” PARA: “QUANDO A SOCIEDADE OLHA, A OBRA ANDA”

Antes de entrar na Força-Tarefa, até mesmo um profissional experiente em engenharia acreditava que acompanhar efetivamente uma obra pública era algo praticamente restrito aos órgãos de controle.

Ministério Público, Tribunais de Contas, sistemas especializados: tudo parecia distante do cidadão comum. Na visão que tinha até então, a população enxergava o tapume, percebia que alguma coisa estava errada, reclamava, mas não possuía ferramentas para agir.

A experiência como voluntário mudou essa percepção. Ele descobriu que informações dos Tribunais de Contas podem ser acessadas e que o cidadão tem condições não apenas de acompanhar a aplicação dos recursos públicos, mas também de contribuir com sugestões e questionamentos.

Victor Guimarães Vieira reforça que: “Minha visão mudou de ‘não adianta’ para ‘quando a sociedade olha, a obra anda’.”

Dentro da Força-Tarefa, o conhecimento técnico ganhou uma nova função. Para ele, o engenheiro não deve ocupar o lugar do cidadão no controle social. Deve ajudá-lo a compreender aquilo que parece complicado, é o que ele chama de “voluntário tradutor”. Enquanto termos técnicos podem afastar quem não pertence à engenharia, o papel do profissional é transformar informações complexas em perguntas que qualquer cidadão consegue compreender:

O que prometeram? O que entregaram até agora? O que está diferente?

Ou, de maneira ainda mais direta: a obra está no prazo? Está dentro do custo? Tem qualidade?

É assim que expressões técnicas deixam de ser uma barreira e o conhecimento passa a ser compartilhado.

TRANSMITIR CONFIANÇA e PERTENCIMENTO

Sua atuação na FTC Obras ganhou outra dimensão quando passou também a exercer a função de tutor. E foi justamente nessa função que percebeu que seu papel não era simplesmente ensinar engenharia. Era transmitir confiança. Como voluntário de campo, participou do acompanhamento de obras em Minas Gerais. Como tutor, passou a apoiar voluntários e iniciativas em diferentes municípios mineiros, entre eles Sete Lagoas, Careaçu, Bocaiúva, Capim Branco, Felixlândia, Guaraciama e Virginópolis, além de experiências envolvendo inspetorias do CREA-MG e outros engenheiros voluntários.

A convivência com diferentes realidades também ampliou sua percepção sobre quando começa o acompanhamento de uma obra. Porque entregar uma escola ou uma creche não começa quando o primeiro tijolo é colocado. Começa antes.

Passa pelo projeto básico, pela licitação, pela qualificação das empresas e pela preparação para o início dos serviços. Como tutor, ele procura contribuir para criar um ambiente de diálogo entre voluntários e responsáveis pela fiscalização, tratar informações e identificar riscos que possam dificultar a execução.

Porque, no final, o objetivo não é simplesmente entregar paredes. É entregar vagas em escolas e creches.

SEBASTIÃO E UMA OBRA QUE ESPERA DESDE 2012

Mas foi diante de uma creche em Sabará que o significado de controle social ganhou rosto e nome: Sebastião. Morador em frente à construção, ele acompanha a realidade daquela obra inacabada há anos. Segundo o relato do engenheiro, desde 2012 Sebastião observa o local, conhece os riscos da região e ajuda a evitar furtos na construção.

Ninguém pediu que fizesse isso. Não houve convocação. Não existia uma função formal. Havia apenas um morador olhando diariamente para uma obra que deveria servir à comunidade e esperando pelo dia em que finalmente pudesse vê-la concluída.

Sebastião Soares Silva
Um olhar de Cidadania e Cuidado com a Comunidade

O engenheiro acompanha as tentativas de retomada dessa creche desde julho de 2025 e viu em Sebastião algo que nenhum relatório técnico seria capaz de demonstrar sozinho: o sentimento de pertencimento. Depois de tantos anos observando a construção, Sebastião deverá contribuir como voluntário de campo, registrando por meio de imagens o desenvolvimento dos serviços.

Talvez essa seja uma das maiores transformações proporcionadas pela Força-Tarefa. No papel, uma creche pode ser um contrato, um cronograma, um percentual de execução ou um processo licitatório. Para quem espera por ela, significa outra coisa.

Significa uma criança tendo onde estudar. Significa uma família encontrando apoio. Significa uma mãe tendo a possibilidade de trabalhar sabendo que o filho possui um lugar adequado para ficar.

Ao falar sobre o legado que pretende deixar, o engenheiro destaca justamente a possibilidade de transferir à sociedade parte do conhecimento adquirido durante sua vida profissional. Para ele, valorizar a engenharia em benefício da sociedade e contribuir para a entrega de vagas na educação infantil pode produzir impactos que ultrapassam os limites do canteiro de obras, alcançando a dignidade das famílias e contribuindo para a melhoria das condições sociais.

LEGADO... ENGENHARIA, SOCIEDADE E CONTROLE SOCIAL NO MESMO CAMINHO

A trajetória desse voluntário ajuda a mostrar que o controle social não precisa colocar técnicos de um lado e cidadãos de outro. Ao contrário. Quando profissionais compartilham conhecimento, voluntários acompanham a realidade local, órgãos de controle disponibilizam informações e comunidades participam, cria-se uma rede capaz de fortalecer a transparência e ampliar o acompanhamento dos recursos públicos.

Para Victor, a cooperação entre órgãos de controle, sociedade civil e profissionais da engenharia pode ampliar a capacidade de monitoramento e contribuir para reduzir desperdícios. É nesse encontro que o conhecimento técnico deixa de pertencer apenas aos especialistas. O engenheiro traduz. O tutor orienta. O voluntário observa. O morador acompanha. E a sociedade participa.

Na Força-Tarefa Cidadã Obras essa soma transforma indignação em ação!

Porque Sebastião, durante anos diante de uma construção inacabada, já demonstrava algo que o projeto procura multiplicar pelo país: quando o cidadão entende que aquela obra também é sua, o controle social deixa de ser apenas fiscalização e passa a ser cidadania.

FAÇA PARTE DA FORÇA TAREFA CIDADÃ

A FORÇA-TAREFA CIDADÃ é uma iniciativa conjunta do Observatório Social do Brasil (OSB) e do Tribunal de Contas da União (TCU). O projeto mobiliza cidadãos voluntários para fiscalizar a retomada de mais de 3.700 obras paralisadas de creches e escolas em todo o país.

Na Força-Tarefa Cidadã Obras, cada visita representa mais do que um relatório técnico, é a demonstração de que a participação da sociedade fortalece a transparência, aproxima o poder público da população e contribui para que obras de interesse coletivo cumpram sua finalidade.

Saiba mais e torne-se um voluntário desta importante iniciativa visitando:

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