OBSERVATÓRIO SOCIAL DO BRASIL

O EFEITO CASCATA DA INTEGRIDADE ESTÁ MAIS PERTO DO QUE VOCÊ IMAGINA

AUTORA:
Letícia Sugai

Com 5 trilhões de dólares você poderia comprar a operação inteira do Google, da Apple ou da Microsoft em 2026. Esse valor supera o PIB anual da Austrália, do Canadá e da Nova Zelândia juntos. Também seria dinheiro suficiente para retirar as bilhões de pessoas que vivem em situação de pobreza extrema no mundo, com menos de US$ 1,25 ao dia, elevá-las a um nível mínimo de dignidade e mantê-las nesse novo patamar por 6 anos. E é, ainda, o valor estimado[1] que se perde para a corrupção todos os anos  (De acordo com estimativas da ONU sobre o PIB global de 2025).

Números tão grandes podem parecer distantes da nossa vida, mas os efeitos da corrupção chegam bastante perto: uma obra que custa mais e entrega menos, o material que falta à escola, o equipamento que demora a chegar ao hospital e tantas outras situações naturalizadas no Brasil. Em âmbito privado, as consequências aparecem na empresa que perdeu uma concorrência porque alguém teve acesso privilegiado a informações. O dinheiro é uma parte da perda, mas a outra é a confiança que vai embora junto.

Existe um efeito cascata do problema: uma decisão indevida compromete uma contratação; a contratação afeta um serviço; o serviço afeta pessoas que talvez nunca saibam por que receberam menos do que deveriam. É justamente por isso que me interessa tanto o efeito cascata do bem que o Observatório Social do Brasil (OSB) pode produzir.

Quando comecei a jornada no universo de compliance e integridade, um mentor me recomendou: “por que você não tenta começar uma parceria com o Observatório Social?”. Os objetivos, afinal, eram semelhantes: trabalhar para construir organizações melhores e mais íntegras. E assim nasceu um dos meus primeiros trabalhos e parceria.

O OSB coordena uma rede de observatórios formada por cidadãos que acompanham, de maneira técnica, voluntária e apartidária, a aplicação de recursos públicos. Nas compras municipais, esse acompanhamento pode começar no edital e seguir até a entrega do produto ou serviço. A rede também promove educação fiscal e incentiva a participação de micro e pequenas empresas nas licitações.

Pense no que acontece quando alguém percebe, antes da disputa, que um edital descreve um produto de forma restritiva ou contém uma exigência que dificulta a concorrência. A pergunta feita naquele momento pode levar a um ajuste e justamente esse ajuste é o que permite que mais empresas participem. Uma disputa mais justa pode melhorar a compra e uma compra melhor pode significar mais recursos disponíveis para atender a população. É a lógica da prevenção funcionando onde ela faz diferença.

Em 2025, segundo dados divulgados pelo próprio OSB, 41 unidades da rede monitoraram 6.153 processos de licitação. Devido às correções e aos ajustes feitos antes das contratações, houve uma economia superior a R$ 9 milhões para municípios. No mesmo ano, as ações de educação fiscal e cidadã alcançaram mais de 39 mil pessoas.

Mas a importância do Observatório não cabe apenas na economia medida em reais, e sim na criança que aprende a perguntar para onde vai o dinheiro dos impostos, no empresário que descobre que pode disputar uma licitação, no voluntário que passa a entender o orçamento da sua cidade e no gestor público que encontra uma sociedade mais atenta, capaz de fazer perguntas técnicas. Cada pessoa alcançada pode levar essa forma de olhar para outro espaço.

Essa história também faz parte da minha. No início da carreira, o OSB me abriu as portas para implementar um dos meus primeiros Programas de Compliance. Em 2017, comecei a apoiar a construção do Programa da própria instituição. Para mim, aquela oportunidade significou muito mais do que um projeto. Foi a chance de colocar em prática uma convicção que continua orientando meu trabalho: se uma organização quer promover integridade, precisa começar pelas próprias decisões. Uma rede que acompanha contratos públicos também precisa cuidar dos seus conflitos de interesses, das relações com apoiadores, da independência dos voluntários e da confiança de quem recebe suas análises. Compliance, ali, tinha uma finalidade muito concreta: proteger a capacidade do Observatório de cumprir sua missão.

O aprendizado seguiu adiante. Tudo o que uma organização desenvolve para lidar melhor com seus riscos pode inspirar outras. Tudo o que um voluntário aprende pode alcançar sua empresa, sua família e sua comunidade. Tudo o que uma empresa aprende ao competir com regras mais claras pode mudar a maneira como ela negocia, contrata e lidera. É assim que vejo o efeito cascata do bem: ele não termina em quem participou da primeira reunião ou assinou a primeira política.

Isso é especialmente importante para os Programas de Compliance e Integridade no Brasil. Podemos ensinar colaboradores a reconhecer favorecimentos, registrar contatos com agentes públicos e recusar combinações entre concorrentes, mas precisamos também de um ambiente no qual a transparência seja praticada fora das empresas. Quando a sociedade acompanha uma contratação, a regra escrita no Código de Conduta encontra uma consequência real. Competir de maneira justa deixa de ser uma frase bonita e passa a ser uma escolha observável.

Às vezes, falamos da corrupção como se a solução estivesse sempre longe, nas mãos de alguém maior. O trabalho do OSB mostra outra possibilidade: começar pela cidade, pelo edital, pela entrega e pela pergunta que alguém decidiu, ativamente, fazer. Foi também uma oportunidade como essa que me ajudou a começar minha trajetória em compliance.

A corrupção pode produzir perdas que se espalham por muitas vidas, mas a integridade também pode se espalhar. A diferença é que, para começar esse segundo movimento, alguém precisa decidir participar.

Parabéns pelos 18 anos de Observatório Social e obrigada. Vocês são um presente para o Brasil.

 

Letícia Sugai

Especialista em Compliance – Sócia Fundadora da Veritaz

Voluntária e Consultora do Comitê de Compliance do Observatório Social do Brasil